O Silêncio Entre os Muros de Lava
O Primeiro Muro que Toquei
Não esperava que a pedra estivesse quente. Era o final da tarde no Pico, a luz já a virar aquele dourado plano que aparece antes de o nevoeiro decidir se volta ou não, e eu tinha pousado a mão num muro sem pensar nisso — como quem toca o batente de uma porta ao entrar numa sala que conhece bem. A pedra era rugosa, porosa, inconfundivelmente vulcânica, e ainda guardava o calor de um sol que, uma hora antes, eu nem tinha notado que era forte o suficiente para deixar marca.
É isso que ninguém nos conta sobre os currais: não vemos a paisagem primeiro. Sentimos o muro.
Tinha vindo de carro desde a Madalena, sem outro plano além de caminhar até me cansar, e depois caminhar mais um pouco. A estrada estreita perto da costa, e a certa altura os campos de ambos os lados deixam de ser campos como eu os reconhecia — sem sebes, sem cercas, apenas esta grelha baixa e infinita de pedra negra, à altura da cintura, a correr em todas as direções como algo desenhado por uma criança a quem tivessem dado uma régua e dito para não parar. Entre os muros, vinhas. Não filas de vinhas a trepar por latadas, como eu tinha imaginado uma vinha, mas vinhas quase deitadas, agarradas ao chão, encaixadas em pequenos currais retangulares, não maiores do que um quarto pequeno.
Estacionei onde o alcatrão desistia e dava lugar à gravilha, e caminhei — um bom exemplo do tipo de descoberta que só acontece quando se opta por conduzir nos Açores em vez de depender apenas de excursões organizadas.
Aprender a Ler a Grelha
À primeira vista, os currais parecem apenas repetitivos — curral atrás de curral, um padrão que resiste a ser fotografado porque nenhum enquadramento único capta o que o conjunto está a fazer. Mas se caminharmos devagar o suficiente, e falo mais devagar do que parece natural, começamos a notar que não há dois currais exatamente do mesmo tamanho. Alguns mal chegam para um punhado de vinhas. Outros estendem-se mais, seguindo alguma falha na antiga corrente de lava que alguém, séculos atrás, decidiu que valia a pena contornar em vez de atravessar.
Foi aí que percebi que esta paisagem inteira é um argumento contra o vento, o mesmo vento que torna a melhor época para visitar os Açores uma pergunta tão pessoal quanto prática. Cada muro existe porque o Atlântico aqui não pede licença. Fique-se num trecho aberto perto da costa e as rajadas chegam de lado, trazendo salitre que se prova nos lábios em poucos minutos.
Entre-se num dos currais, agache-se mesmo que pouco, e o ar fica quase imediatamente parado — o mesmo truque que um muro baixo de jardim faz, mas multiplicado por toda uma encosta, e construído com pedra que alguém partiu e empilhou à mão a partir de um campo de lava que deve ter parecido, a quem começou este projeto algures no século XV, quase impossível de cultivar.
Encontrei-me a pensar nessa pessoa mais do que uma vez. Quem quer que tenha aberto o primeiro curral aqui não estava a decorar uma costa — a costa ainda não era, no sentido em que hoje entendemos, algo para se olhar. Estavam a resolver um problema: como se cultiva alguma coisa numa plataforma de lava arrefecida, a poucos quilómetros do oceano aberto, com um vento que achata tudo o que não desfaz?
A resposta, construída ao longo de gerações, foi esta paisagem vinícola classificada pela UNESCO. Continua a ser mantida hoje, muro a muro, perto de São Roque do Pico e mais além, em direção às Lajes do Pico, o que só fez com que tudo parecesse menos um monumento e mais uma conversa ainda em curso.
A Montanha, Sempre Presente
Não se caminha por esta paisagem sem a montanha a observar. A Montanha do Pico fica atrás de tudo aqui, e, consoante a hora, ou está recortada contra um céu limpo ou dissolvida quase por completo em nuvens, ao ponto de nos surpreendermos a verificá-la como quem verifica o tempo — o que, de certa forma, é exatamente o que estamos a fazer. Perdi uma quantidade embaraçosa de tempo apenas parado à beira de um curral, as vinhas pelos joelhos, a ver o cume aparecer e desaparecer por trás de nuvens em movimento rápido, enquanto o oceano fazia algo completamente diferente cinquenta metros na direção oposta, plano, prateado e absolutamente indiferente.
Há uma qualidade de luz particular na hora antes do pôr do sol aqui, tão rasante que cada muro projeta uma sombra o dobro da sua própria altura, e a grelha inteira ganha subitamente uma leitura tridimensional que não tem ao meio-dia — um dos melhores locais para fotografia nos Açores que encontrei em toda a viagem.
A pedra negra deixa de parecer uniforme e começa a mostrar toda a sua variação — algumas peças lisas onde a lava arrefeceu de forma regular, outras irregulares e vesiculares, cheias dos pequenos buracos que o gás deixa quando tenta escapar da rocha. Encontrei um trecho baixo de muro, sentei-me nele, e fiquei simplesmente a ver a cor mudar por mais tempo do que admitiria a quem me esperasse para jantar.
O Que Ficou Comigo
Não vou fingir que compreendi o lado vinícola de tudo isto — como as uvas cultivadas deitadas dentro destes currais acabam num copo, o que os produtores fazem realmente com o fruto que sobrevive aqui. Isso é um tipo diferente de visita, com um tipo diferente de atenção, e merece o seu próprio guia de vinhos dos Açores em vez de um parágrafo pendurado numa caminhada. O que vos posso dizer é o que a paisagem faz ao nosso sentido de escala.
À distância, perto do Pico ou visto de um barco ao largo, os currais leem-se como textura, quase como um tecido tecido sobre a costa. De perto, caminhando entre eles, tornam-se arquitetura — pequena, à escala humana, deliberada, repetida numa escala que deixa de parecer terreno agrícola e passa a parecer um claustro de mosteiro sem telhado.
Já li o suficiente desde então para saber que esta é uma das razões pelas quais toda a paisagem tem reconhecimento da UNESCO, e compreendo o raciocínio da forma como se compreende um facto — mas não é o raciocínio que me fica na memória ao caminhar de volta para o carro, já escuro. O que me fica é o vento a parar no momento em que entrava num curral, e a recomeçar no momento em que saía.
Lembro-me de pensar que as Lajes do Pico, mais abaixo na costa, fazem parte de uma história da baleação nos Açores que observou baleias a partir de terra durante gerações antes de alguém as caçar a partir de barcos, e que essa mesma paciência — ler a terra, trabalhar com o que ela dá em vez de contra ela — parece atravessar também os muros de pedra. Mais tarde nessa noite, numa das excursões de observação de baleias dos Açores que tinha saído precisamente à procura desses animais, vi a costa a afastar-se e distingui, a partir da água, a grelha pálida dos currais, e pareceu-me, dali, quase uma caligrafia.
Se a vossa viagem o permitir, façam esta caminhada duas vezes: uma vez em pleno sol, outra vez à medida que a luz desce. É uma paisagem diferente das duas vezes, e nenhuma das versões explica a outra.
Perguntas Frequentes Sobre Caminhar pelos Currais do Pico
O que são exatamente os currais?
Os currais são pequenos lotes retangulares fechados por muros baixos de pedra vulcânica sem argamassa, construídos para proteger as videiras do vento e do salitre ao longo da costa do Pico. A maioria tem apenas alguns metros de largura, e a grelha que os envolve estende-se por grandes secções do litoral ocidental e meridional da ilha.
Que idade tem esta paisagem?
A prática de envolver as vinhas desta forma remonta a cerca do século XV, quando os primeiros colonos começaram a trabalhar os campos de lava arrefecida perto da costa. Muitos dos muros hoje percorridos foram reconstruídos e mantidos várias vezes, mas o traçado segue padrões definidos há séculos.
Caminhar pelos currais é fisicamente difícil?
Não particularmente — o terreno é irregular e pedregoso, e não há sombra, mas não existem subidas sérias apenas ao vaguear pela grelha perto da costa. Vale a pena consultar os graus de dificuldade dos trilhos dos Açores antes de decidir quanto tempo reservar. Calçado firme e um corta-vento importam mais do que a forma física.
Preciso de saber alguma coisa sobre vinho para apreciar a caminhada?
De todo. A caminhada é sobre a paisagem em si — a pedra, o vento, a luz, a montanha ao fundo — mais do que sobre as uvas ou o vinho em que acabam por se transformar. Esse lado da história pertence a um tipo de visita completamente diferente.
A paisagem muda consoante a hora do dia?
Muitíssimo. A luz do meio-dia achata a grelha num padrão repetitivo, enquanto a luz do final da tarde projeta sombras longas de cada muro e realça a textura da pedra. A montanha por trás da paisagem também alterna constantemente entre visível e coberta de nuvens.
Posso combinar esta caminhada com mais alguma coisa perto no Pico?
Muitos visitantes combinam uma caminhada pelos currais com tempo junto à costa perto das Lajes do Pico, historicamente ligadas às tradições baleeiras e de observação de baleias da ilha, ou com um dos passeios de barco nos Açores ao entardecer, já com a luz a desaparecer.
observar sopros de baleias a partir de um miradouro costeiro com um guia do Pico depois de uma tarde entre as vinhas acabou por ser a forma certa de terminar aquele dia em particular — um tipo de paciência a seguir outro.
Para quem viaja em pequeno grupo, uma expedição privada de observação de baleias e golfinhos entre o Pico e o Faial prolonga esse mesmo instinto de ler a água até ao próprio barco, e uma mais clássica saída de barco para observação de cetáceos é uma forma fácil de encerrar um dia que começou entre os muros de lava.
Quanto ao lado prático de visitar as vinhas — o que procurar, que sabor tem o vinho, como a paisagem está organizada para os visitantes — isso pertence ao seu próprio guia e não a esta caminhada. Por agora, digo apenas: dê a si mesmo mais tempo entre os currais do que pensa precisar, e deixe que seja a montanha a decidir quando a luz do dia acabou.
tours.wine-tasting
Passeios GetYourGuide verificados com ligação direta. Reserve através destes links e recebemos uma pequena comissão sem custo para si.
A GetYourGuide não fornece uma fotografia do produto para esta atividade — a imagem mostra o ponto de encontro, fotografado por nós.


