Os Últimos Baleeiros dos Açores
História e Património

Os Últimos Baleeiros dos Açores

Um Penhasco, um Café, e um Velho Hábito

Estava eu num promontório na costa norte do Pico, com um café já a arrefecer na mão, quando reparei que o homem ao meu lado não estava a olhar para a paisagem. Estava a olhar para a água — mais concretamente, para um único ponto da água, da forma como se observa uma porta por onde se espera que alguém vá entrar. Não era turista. Contou-me, sem grande cerimónia, que o avô dele costumava estar mais ou menos naquele mesmo sítio, mais ou menos pela mesma razão, exceto que, quando o avô via o que procurava, os botes saíam com arpões em vez de câmaras.

Foi essa conversa que me fez querer escrever isto, e é também a razão pela qual não vou dar-lhe aqui uma cronologia completa da baleação açoriana — a história da baleação nos Açores já faz isso devidamente, ano a ano. O que quero falar aqui é sobre a sensação de estar naquele penhasco e perceber que o passado não tinha sido demolido e substituído. Tinha apenas mudado aquilo que observava.

Ilhas Construídas em Torno de um Animal

É fácil, numa primeira viagem, viver o Pico, o Faial e São Jorge como postais — vinhedos, uma marina, fajãs verdes — sem perceber quão recentemente estas mesmas ilhas viviam de uma economia completamente diferente. A caça à baleia a partir da costa aqui não foi uma nota de rodapé medieval; prolongou-se até ao início dos anos 1980, décadas depois de a maior parte do mundo baleeiro ter parado.

Pequenas fábricas e tripulações de botes abertos trabalhavam a partir de portos que hoje são mais conhecidos por ferries e barcos de mergulho. Não vou percorrer todo o lado industrial disso, porque não é bem o objetivo deste texto, e o pormenor já está coberto noutro lugar. O que me impressionou, ao falar com pessoas no Pico e na Horta, foi como a transição lhes pareceu natural. Ninguém descreveu uma rutura limpa. Descreveram uma passagem lenta.

A Vigia Nunca Deixou Realmente de Trabalhar

A palavra que surgia sempre era vigia — o observador, e por extensão o próprio posto de vigia, normalmente uma pequena estrutura encravada num penhasco com uma visão desimpedida sobre o mar. A competência de uma vigia era ler o mar a partir de muito acima dele: saber como é o sopro de uma baleia a dois quilómetros, distinguir um cachalote de uma sombra, prever para que lado um grupo se iria mover antes de se mover. É uma capacidade genuinamente difícil e paciente, construída ao longo de uma vida de trabalho, e não algo que se aprenda numa tarde.

Quando os botes baleeiros deixaram de sair, essa competência não tinha para onde ir aparentemente — exceto que tinha. Vários dos atuais operadores de observação de baleias nasceram diretamente de famílias de antigos baleeiros, ou formaram-se com pessoas que tinham passado anos a ler estas mesmas águas com um propósito muito diferente.

Os postos de vigia não fecharam. Foram reaproveitados, por vezes literalmente o mesmo edifício, agora a comunicar coordenadas por rádio a botes cheios de visitantes com câmaras em vez de uma frota com arpões. Acho esse pormenor mais comovente do que quase tudo o resto na história açoriana: a mesma competência humana, exatamente, dirigida ao mesmo animal, exatamente, por uma razão oposta.

Se está a escolher onde basear a sua viagem especificamente para conhecer este lado das ilhas, qual é a melhor ilha para observação de baleias é uma leitura mais útil e prática do que qualquer coisa que eu possa oferecer aqui — este é um texto sobre como se sente, não sobre onde reservar.

O Que os Barcos Transportam Agora

Ao passear por um lugar como a marina da Horta, encontra-se uma segunda versão, mais discreta, desta mesma transição. Murais de marinheiros no quebra-mar, décadas de nomes e datas, ficam a poucos passos de edifícios que outrora tiveram funções bem diferentes.

A talha em osso de baleia — a scrimshaw — ainda se faz e se vende como um artesanato açoriano, o que é em si uma herança estranha: uma forma de arte nascida diretamente da caça, mantida viva hoje como decoração e memória, e não como troféu. Não me parece que isso deva causar embaraço. É mais parecido com uma comunidade piscatória que mantém os seus nós e as suas cantigas muito depois de os barcos mudarem.

Uma Pergunta a que Continuo a Voltar

Perguntei ao homem no penhasco do Pico se lhe parecia estranho que a sua família tivesse passado de matar cachalotes a, na geração do filho, levar turistas a observá-los e a protegê-los. Encolheu os ombros de uma forma que sugeria que a pergunta era mais minha do que dele. Para ele, os dois trabalhos eram, no fundo, o mesmo trabalho: conhecer o mar, conhecer o animal, estar presente quando ele emerge. A razão mudou. A atenção não.

Tenho pensado muito nisso desde então. Seria arrumado contar isto como uma história de redenção — caçadores que se tornam protetores — mas essa moldura achata algo mais interessante, que é a continuidade. Os Açores não apagaram o seu passado baleeiro para construir a observação de baleias; construíram a observação de baleias em cima dele, usando os mesmos olhos, os mesmos penhascos, muitas vezes os mesmos apelidos. Se sair numa saída de observação de baleias e golfinhos a partir de São Miguel ou do Pico, há uma boa probabilidade de que o sistema de avistamento que guia o seu barco remonte, por mais indireto que seja o caminho, a um posto de vigia que serviu outrora uma frota bem diferente.

um tour do património baleeiro que percorre esta história em São Miguel deu-me mais dessa continuidade do que qualquer painel de museu — ouvi-la de alguém cuja própria família viveu as duas metades da história.

Mais tarde, na viagem, uma tarde a avistar baleias e golfinhos tornou a ligação concreta: o guia que comunicava por rádio os avistamentos usava uma linguagem e sinais manuais que, contou-nos com bom humor, o tio dele tinha usado trinta anos antes para o propósito oposto. Para um dia mais longo no mar com alguém capaz de explicar tanto a biologia marinha como a história, um seafari privado com um biólogo marinho vale o custo extra.

Para Onde Eu Sugeriria Ir

Planeei os meus próprios dias em torno disto de forma solta, sem tentar transformá-lo numa lista de tarefas. Uma manhã calma no Pico, um passeio por São Roque do Pico, onde esteve uma das antigas estações, uma tarde na Horta, e uma noite de volta a um promontório, sem nada para fazer a não ser observar a água como o homem que conheci a observava. Se quiser a versão prática de uma viagem aos Açores construída em parte à volta deste tema, o nosso itinerário de observação de baleias nos Açores traça um roteiro sem perder o lado mais lento e pessoal disto tudo.

Não creio que os Açores tenham alguma vez deixado de ser um arquipélago de observação de baleias. Apenas mudaram, dentro da memória viva, aquilo para que servia observar.

Perguntas que Ainda Me Fazem Sobre Esta História

Quando terminou realmente a caça à baleia nos Açores?

A caça ao cachalote a partir da costa continuou até ao início dos anos 1980, muito depois de a maioria das nações baleeiras ter parado, com as últimas estações no Pico, no Faial e em São Jorge a fecharem com poucos anos de diferença entre si.

Existiram mesmo fábricas de baleação nas ilhas?

Sim. Pequenas estações de processamento e postos de vigia funcionaram no Pico, no Faial e em São Jorge, construídos em torno da mesma geografia costeira que mais tarde tornou estas ilhas bases naturais para a observação de baleias.

O que é uma vigia?

Uma vigia é um posto de observação num penhasco, outrora ocupado por um vigia que perscrutava o oceano à procura do sopro de um cachalote e comunicava por rádio com os botes baleeiros. Muitos desses mesmos postos ainda são usados hoje, agora por operadores de observação de baleias.

Antigos baleeiros ou as suas famílias trabalham hoje na observação de baleias?

Em vários casos, sim — as capacidades de avistamento e o conhecimento de onde os cachalotes emergem foram transmitidos dentro de famílias e pequenas tripulações, dos botes baleeiros aos atuais barcos de observação.

É estranho que uma cultura de caça à baleia proteja agora as baleias?

Pode parecer estranho à primeira vista, mas as duas atividades partilham o mesmo ponto de partida: ler o oceano e saber onde estão as baleias, que é a verdadeira herança transmitida de geração em geração.

Ainda é possível ver vestígios da era da baleação no Pico ou no Faial?

Antigos postos de vigia, edifícios tranquilos junto ao porto e a própria forma de cidades como a Horta ainda carregam essa história, embora este texto seja uma reflexão pessoal e não um guia de visita a um local específico.

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