Um Dia nas Furnas: Termas, Vapor e um Almoço Enterrado
A primeira coisa que notei nas Furnas foi o cheiro — enxofre, ténue e mineral, a subir de algum ponto do solo antes mesmo de eu ter estacionado o carro. Acompanhou-me o resto do dia, entre as árvores do Terra Nostra, até à vila para almoçar, e até à segunda piscina ao entardecer. Ao anoitecer, já tinha deixado de o notar como cheiro. Tinha-se tornado, simplesmente, a forma como o vale respira.
Início da manhã: o primeiro banho
Cheguei ao Parque Terra Nostra cedo, de propósito, antes de os grupos de autocarro vindos de Ponta Delgada chegarem e transformarem os caminhos do jardim numa lenta procissão. A água da piscina grande tem a cor de chá fraco, tingida de um profundo castanho-alaranjado pelo ferro e pelos minerais que traz consigo lá do fundo, e está quente o suficiente para que o ar fresco da manhã, sobre a superfície, faça subir uma baixa cortina de vapor. Entrei devagar, como todos fazem, sentindo a temperatura mudar a cada degrau, e quando já estava com a água pelo peito o frio com que tinha chegado desaparecera por completo.
O que me impressionou foi como quase ninguém falava. Alguns madrugadores boiavam perto das bordas, na maioria sozinhos, meio submersos, olhando para os fetos arbóreos e as camélias que rodeiam a piscina — este canto de São Miguel é um jardim botânico privado desde o século dezanove, e continua a sentir-se como tal, mesmo com estranhos a boiar a poucos metros de distância. Perdi a noção do tempo ali dentro. Creio que é essa, no fundo, toda a função do lugar: existe para nos fazer parar de olhar para o relógio, e resulta.
Quando saí, a pele tinha aquela sensação particular, amaciada e ligeiramente empapada, que só um longo banho em água mineral proporciona, e o meu fato de banho já trazia o leve tom ferrugento contra o qual todos nos avisam. Não me importei. Parecia prova de que tinha realmente estado num lugar, e não apenas fotografado.
Meio-dia: a espera, e o cozido
Almoçar nas Furnas não é bem almoçar — é mais um encontro marcado com algo que está a cozinhar desde antes de acordarmos. As panelas do cozido das Furnas — carne, morcela, couve, batata-doce, tudo embrulhado junto — são enterradas no solo junto às fumarolas, na margem da Lagoa das Furnas, seladas, e deixadas a cozinhar durante horas apenas com o calor vulcânico e o seu próprio vapor. Não há chama, não há fogão, nada que se reconheça como equipamento de cozinha. Apenas a própria terra a fazer o trabalho.
Desci até à zona de fumarolas junto ao lago antes do almoço, sobretudo por curiosidade, e fiquei a observar os homens de botas de borracha a verificar as panelas enterradas, com vapor a subir de manchas de terra nua à sua volta, como uma paisagem que se tivesse esquecido de deixar de ser um vulcão. É estranho ver a nossa comida a cozinhar dentro de um buraco no chão. Algures entre o inquietante e o completamente encantador.
Quando a panela finalmente chegou à mesa, já de volta à vila, a carne tinha aquela textura que se desfaz e que só surge de horas de calor lento e uniforme, e tudo — a couve, as batatas, a morcela — trazia uma leve nota fumada e terrosa que só consigo descrever como o sabor do próprio vale. Comi devagar, em parte porque ainda estava com os membros um pouco moles do mergulho matinal, e em parte porque apressar uma refeição que levou seis horas a preparar pareceria perder por completo o sentido. Se quiser o lado prático de encomendar um — os tempos, onde reservar, o que esperar no prato — isso está no nosso guia completo do cozido e não aqui; isto foi apenas a experiência de o comer.
Tarde: verde, sossego e um certo sono
Depois do almoço, as Furnas fazem-nos algo astuto: tiram-nos completamente a vontade de fazer o que quer que seja. Passei o início da tarde a passear pela vila a meio ritmo, entre sebes de hortênsias que começavam a encorpar ao longo da estrada — ainda longe da sua cor plena de verão, mas verdes e densas o suficiente para anunciar o que aí vinha — e por pequenas capelas e casas de hóspedes encostadas a um vale que parece sempre ligeiramente húmido, ligeiramente quente, e ligeiramente fora do tempo do resto da ilha.
Cheguei a pensar em ir até à Lagoa do Fogo ou avançar até ao Nordeste durante a tarde, e se tiver mais energia do que eu tinha naquele dia, uma excursão de dia inteiro ao Nordeste que percorre este lado da ilha é uma excelente forma de combinar as Furnas com os miradouros costeiros mais dramáticos a norte — uma excursão de dia inteiro ao Nordeste que cobre este lado de São Miguel é como faria numa próxima visita.
Mas naquele dia em particular fiquei por ali. As Furnas, ao que parece, castigam a ambição. Sempre que tentava planear o resto da tarde, acabava sentado num banco em vez disso.
Final da tarde: a segunda piscina
Ao final da tarde, a luz do vale ganhara aquele tom dourado e suave que só aparece durante uma hora ou pouco mais antes do crepúsculo, e segui até à Poça da Dona Beija, a segunda das piscinas termais públicas do vale. É mais pequena e mais íntima do que o Terra Nostra, uma série de piscinas ligadas entre si, escondidas numa mancha de floresta mesmo à beira da vila, e, a esta altura do dia, eu já me tinha rendido por completo ao ritmo do lugar: caminhar, mergulhar, esperar, comer, caminhar, mergulhar de novo.
Aqui a água corre ainda mais quente em certos pontos, e mais quente ainda mesmo onde nasce do solo — encontrei um lugar junto a uma das nascentes e fiquei ali até as pontas dos dedos ficarem bem enrugadas. O vapor subia das piscinas para o ar cada vez mais fresco da noite, misturando-se com fumo de lenha vindo de algures perto, e a luz por entre as árvores tingia toda a cena de um laranja quente e ligeiramente enevoado que nenhuma fotografia que tirei conseguiu captar de verdade. A minha toalha, tal como o fato de banho de manhã, saiu manchada. Tinha sido avisado, e mesmo assim ainda não tinha acreditado por completo até ver a cor com os meus próprios olhos.
A saída
Deixei as Furnas já depois de anoitecer, com os faróis a apanhar bancos de neblina baixa a rolar pelas encostas na estrada de volta ao resto de São Miguel. É uma viagem curta para os padrões da ilha, mas pareceu deixar para trás um lugar muito mais distante — o tipo de sítio onde um dia inteiro desaparece entre água quente, comida enterrada e sebes de hortênsias, e só damos por isso quando já estamos de volta à estrada principal e o cheiro a enxofre finalmente começa a desvanecer.
Se está a ponderar se um dia assim encaixa na sua própria viagem, o nosso guia sobre a melhor altura para visitar e um itinerário mais alargado de cinco dias em São Miguel são melhores pontos de partida do que esta história — isto foi apenas o que um dia, vivido devagar, realmente pareceu ser. E se um mergulho lhe deixar vontade de mais do que a água da ilha tem para oferecer, o nosso guia das termas reúne as outras piscinas que vale a pena conhecer para além das Furnas.
FAQ sobre um dia nas Furnas: horários, ordem e o que dispensar
Em que ordem devo visitar o Terra Nostra, o cozido e a Poça da Dona Beija?
De manhã o Terra Nostra, o almoço na vila quando o cozido estiver pronto, e a Poça da Dona Beija ao final da tarde. Esta ordem corresponde ao momento em que cada lugar está no seu melhor e à luz mais bonita do vale.
Consigo mesmo encaixar os três num único dia?
Sim — é precisamente esse o objetivo de um dia nas Furnas, e é a forma mais comum de viver o vale. Os três pontos ficam próximos uns dos outros, e os intervalos naturais entre eles (banho, espera pelo almoço, digestão) são o que faz o ritmo funcionar, em vez de o contrariar.
Preciso de reservar alguma coisa com antecedência para um dia assim?
Algumas partes exigem, sim, planeamento antecipado, sobretudo o cozido nos meses de maior procura. Os aspetos práticos — reservas, horários, preços atuais — estão cobertos nos nossos guias dedicados em vez de repetidos aqui, já que esses detalhes mudam com mais frequência do que uma história.
Vale a pena visitar as Furnas se só tiver alguns dias em São Miguel?
A maioria dos visitantes de primeira viagem a São Miguel coloca-as entre os pontos altos da ilha, a par de Sete Cidades. Se o tempo for escasso, um único dia bem organizado no vale ainda assim entrega a experiência completa aqui descrita.
O que devo levar para um dia de termas nas Furnas?
Um fato de banho e uma toalha que não se importe de manchar, mais uma camada leve para a caminhada entre a piscina e a vila, já que a neblina do vale mantém o ar húmido mesmo em dias de sol. Os detalhes sobre o que a água rica em ferro faz aos tecidos estão no nosso guia dedicado.
As Furnas são uma boa opção num dia de chuva?
São, sim — o encanto da água quente muda pouco quando chove, e o vapor a subir das piscinas contra o céu cinzento faz parte da atmosfera do vale em vez de ser um defeito.
A que distância ficam as Furnas de Ponta Delgada?
Situam-se no lado leste de São Miguel, próximas o suficiente para uma longa excursão de um dia a partir da capital, mas distantes o bastante para que a maioria dos visitantes prefira abrandar e tratá-las como um destino em si mesmo, em vez de uma paragem rápida.
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